2018

Eu poderia começar este texto comentando que 2018 talvez tenha sido o pior ano da minha vida, mas eu não acredito mais nesse tipo de acontecimento. Hoje em dia aceitei que tudo o que passamos nos ensina algo e 2018 me ensinou muito!

A principal lição que levei de 2018 foi o fato de que eu mentia era pra mim mesmo quando dizia que estava tudo bem, mas dentro de mim era um caos.

A vida estava igual a música de Luiz Lins.

Foi o ano que me mostrou que jovens também adoecem pesado emocionalmente, que o emprego não é a parte mais importante da nossa vida e que uma grande parte dos nossos problemas existem por causa das expectativas que criamos e o medo do fracasso (um fracasso que só existe na nossa cabeça).

Prologo

Deixa eu te contextualizar melhor antes de continuarmos esse papo: em 2010 eu decidi mudar de vida. Eu morava em um bairro periférico de São Bernardo do Campo conhecido como Las Palmas, também chamado de Alvarenga por alguns, Orquídeas para outros e Los Santos para os íntimos. Se você não sabia, bairro de periferia normalmente não tem um nome certo nem no mapa da prefeitura. Assim como a maioria dos jovens, eu estava deixando a vida me levar, afinal de contas ninguém me ensinou o que a vida me cobraria no futuro além do fato de que eu teria que trabalhar muito para conquistar qualquer coisa que eu sonhasse.

Minha mãe, uma mãe solo de 4 filhos, não teve educação formal e muito menos familiar. Pobre dela, que teve menos carinho na infância do que eu tenho pelos 1% mais ricos do Brasil, mas ela nos criou do seu modo e fazendo o seu melhor com o que tinha sobre a vida. Amor não nos faltou.

Algo estava para mudar naquele ano. Muito antes, em 2009, eu havia começado um relacionamento com uma pessoa bem diferente de mim. Ela pensava em faculdade, trabalhar com algo que gosta, viver além do piloto automático, tomar as redeas do seu futuro. E foi assim que eu comecei a “tomar um rumo na vida”.

Em 2012 eu trabalhei em uma multinacional pela primeira vez na vida, e em uma gigante, a HP. Lá eu aprendi sobre carreira e comecei a mudar mais ainda de pensamento sobre futuro profissional.

Em 2014, depois de alguns anos de luta que vou te contar em outro momento, entrei na área de desenvolvimento de software, hoje eu trabalho como engenheiro de software e lidero uma equipe de engenharia. – Chique, não?

Antes de entrar na área de tecnologia, por mais que minha mãe se esforçou muito eu vinha sem perspectiva sobre futuro profissional. Eu não aprendi minha profissão com 8 anos de idade, não tive computador em casa antes de ser maior de idade, não tive nenhum doutor ou mestre na família para me espelhar e antes de entrar na área de tecnologia, não sabia nada sobre planejamento financeiro, filosofia, política, investimentos ou inglês. Perceba a mudança que rolou na minha vida depois de adulto.

No ano de 2018 eu estava em uma situação financeira bem maneira. Com dinheiro guardado para emergências, aprendendo a investir na bolsa de valores, tinha um emprego estável em uma empresa de grande visibilidade (uma daquelas que virou “unicórnio“), trabalhava em várias iniciativas sociais e profissionais e havia publicado um livro, que vinha vendendo muito bem, focado em ajudar outras pessoas a conhecerem a área de que tanto transformou minha realidade.

Ou seja: não poderia reclamar de 2018, não é mesmo?

Errado.

Photo by insung yoon on Unsplash

Frustrações atrás de frustrações

Quando eu entrei na empresa, tive uma excelente percepção. Principalmente no quesito diversidade e inclusão. Isso me deu um senso imenso de pertencimento. As pessoas que me cercavam compartilhavam experiências de vida muito parecidas com as minhas. Pessoas da Leste, do Capão, das quebradas de Guarulhos. Algumas pessoas que viveram uma infância desprovida de luxos ou opções e mesmo assim chegaram ali. No almoço eu tinha conversa, tinha assunto pra falar. Era muito legal e me motivava a estar ali, além de distrair dos outros problemas do mundo a fora.

Só que, de repente, eu já não me sentia em casa. Minha confiança nos processos da empresa caiu muito. O lugar onde eu me enxergava nas pessoas, de repente ficou mais branco que giz de professor e quando eu reclamava sobre o fato de a diversidade e inclusão estarem sendo abandonadas em prol do crescimento do quadro de funcionários, tomava uma bela sabonetada. Isso não era pra ser algo tão impactante, uma vez que é normal empresas passarem por mudanças culturais ou até por momentos em que não estão tão bem. Porém o que eu não imaginava aconteceu: eu comecei a ficar deprimido e sobrecarregado de expectativas desequilibradas que começaram a existir por lá.

Tudo bem. 2018 não me derrubou. Apesar do emprego formal ser um dos pilares da minha felicidade, eu também tinha meu trabalho social e projetos paralelos que me colocavam pra cima.

Eu ministrava palestras, escrevia artigos técnicos para o meu blog e para outros. Era muito ativo na cena do compartilhamento de conhecimento sobre engenharia de software.

Meus alunos e alunas estavam seguindo bem com nossas aulas nos projetos sociais. Quase não tinham faltas. E, de novo, uma virada aconteceu. Perdemos a sala onde eu dava as aulas para um outro projeto mais formal em parceria com uma grande empresa de aplicativo de mobilidade urbana. Outro processo comum quando fazemos projetos sociais por conta própria, sem uma marca ou nome grande por trás. Eu continuava “bem” apesar de estar acumulando frustrações.

O relacionamento amoroso rolava, mas não estava tão legal e eu não contava nada pra ninguém, nem mesmo para ela. Por vários motivos, criei o hábito de não mais abrir meus sentimentos para as pessoas e isso foi um dos problemas que me trouxeram até esse ano tão pesado.

A distância da minha mãe me incomoda e naquela época me entristecia muito mais. Eu me mudei para São Paulo em 2016 e desde então estou sozinho e a minha véia a 37 km de distância. Não é muito, mas de busão se vão 4:30/5h de rolê (sem trânsito). Acabou ficando difícil eu visitar ela durante a semana e, por conta dos meus projetos paralelos e do namoro, nos finais de semana também. Meus amigos de infância, nem se fala. Eu nem lembro a última vez que nos encontramos pessoalmente.

O uso desenfreado das redes sociais e a quantidade de notícias ruins só ajudavam meu quadro se agravar. Você não vê, mas essa chuva de informação uma hora te encharca.

E sem pedir licença entrou na minha vida a depressão.

A queda

No meio de 2018, ano que vinha me batendo pra caramba, eu decidi que já estava cansado. Cansado de tudo.

Eu tentei tantos meios de me sentir bem, como tentar me aproximar das pessoas, me abrir mais, ser mais flexível quanto ao trabalho, ser menos perfeccionista, falar mais sobre meus sentimentos. Mas nada disso ajudou. Terapia, esportes, jogos, distração… Nada.

Pessoalmente eu não enxergava mais motivos pra continuar vivendo uma vida onde viemos correndo atrás de algo que nunca vamos alcançar, temos que cumprir as metas que outras pessoas colocam em nossa vida pra agradar o bolso do patrão. Cansei de não ser bom no relacionamento, de não me ver como um bom amigo ou um bom filho. Eu decidi que iria tirar a minha vida.

Em 2018 eu desisti.

Continua

No próximo texto, vou comentar sobre 2019. Um ano tão pesado quanto 2018, mas que transformou a minha vida (talvez para sempre).

Se quiser acompanhar minha história ou conhecer mais sobre o Malabarizando, siga o projeto nas redes sociais:

Até mais.

2 comentários em “2018

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