2019

Eu tomei um susto quando fui na psiquiatra pela primeira vez. Na minha cabeça seria só uma consulta igual qualquer outra: entra, senta na cadeira, troca ideia com o médico ou médica, recebe um prognóstico, uma guia de exames e pronto. Só que foi muito mais do que isso. Pra mim foi o que me manteve vivo em 2019.

No post anterior, onde eu falava sobre 2018, comentei como cheguei ao pico da depressão, sobre como a tendência de esconder os sentimentos me levou a carregar um peso imenso, me fazendo muito mal e no final do texto comentei sobre algo novo na minha vida: o pensamento suicida.

Preciso deixar um alerta neste texto, pois teremos gatilhos sobre suicídio, por isso tome cuidado se tem algum pensamento desse tipo e, se não se sentir forte o suficiente, pule metade do texto.

Photo by Aditya Vyas on Unsplash

O processo de aceitação do pensamento suicida

No final de 2018 eu havia decidido que iria dar um fim ao meu sofrimento.

Quando pensamos em findar a nossa vida, não é algo fácil. Não é um sentimento simples de abandonar tudo ou desistir de tentar. Nós tentamos tudo, nós pensamos em tudo, mas mesmo assim, decidimos que precisamos resolver o problema de uma vez por todas.

Eu pensei muito na minha mãe, pensei muito na minha companheira e pensava demais nas pessoas que me amam, mas no final eu já não aguentava mais tanta pressão social, o mercado de trabalho canibal, o sistema social em que vivemos, as dúvidas que eu tinha sobre o meu futuro e/ou sobre quem eu sou, o que eu sou. No final, a solução era dar um fim ao meu sofrimento tirando minha vida.

Tirei alguns dias para planejar como seria e então coloquei o plano em prática no final de 2018 até o meio de 2019, quando de fato eu iria tirar a minha vida. O processo consistiu em comprar medicamentos aleatórios, que eu poderia tomar tudo de uma vez para levar meu organismo a um colapso e se isso não funcionasse eu iria para o processo mais dolorido que seria cortar os punhos.

Assim foi. Mas no meio de 2019, uma amiga me incentivaria a procurar uma psiquiatra para tratar os sentimentos negativos e falta de energia que eu vinha sentindo, pois, para ela, parecia muito com o que o pai dela tem, a depressão.

Em 2019 eu já não tinha mais o preconceito que carreguei por tanto tempo, acreditando que psiquiatra é “médico de gente doida”. Sério, precisamos trabalhar muito para eliminar esse preconceito de vez. Muitas vidas poderiam ter sido poupadas se conversássemos sobre isso.

Yara, você me salvou.

Pode parecer fácil de falar sobre suicídio, agora que eu até escrevo sobre o assunto, mas só consigo me abrir por causa da dor mais intensa que eu senti na minha vida, que foi quando a psiquiatra me segurou em uma sala por duas horas questionando sobre esse assunto. A psiquiatra parecia ter uma picareta e quanto mais ela tentava quebrar a rocha que era falar sobre suicídio, mais dor eu sentia.

Remédios para a depressão

Durante a sessão, foram passados vários exames para verificar como estava o meu organismo, depois de muita pesquisa e análise, a doutora chegou a conclusão de que eu estava em uma depressão profunda e que, no estado em que eu estava, não daria para cuidarmos disso somente com a terapia, seria necessário intervenção de medicamentos para me ajudar a passar pelas intervenções que aconteceriam.

Tudo bem. Como comentei anteriormente, eu já estava mais acostumado com a ideia de passar por psiquiatras e também não tinha mais preconceito contra tomar medicamentos. Com a explicação dela, ficou claro que o uso do medicamento seria temporário e um suporte a terapia.

Foi então que, além da terapia pesada que eu iria enfrentar dali pra frente, comecei a tomar medicamentos para a depressão. O pior é que o pensamento suicida não sumiu de um dia para o outro, então eu pensava também em comprar mais desse remédio, que é bem forte, e usar junto ao meu veneno. Terrível.

Ainda bem que, dali para frente, o processo de recuperação iria começar.

Levanta e anda

A vida até aqui me bateu muito. Eu só não percebi isso porque, para quem está em uma realidade de violência, escassez e escolhas difíceis, aquilo é a única maneira de viver. Mas quando olho para trás, percebo tudo o que é tirado do favelado, tudo o que não é dado e o que passamos em busca do mínimo.

Como diz a letra de Levanta e Anda, de Emicida e Rael:

Quem costuma vir de onde eu sou

Às vezes não tem motivos pra seguir

Então levanta e anda, vai, levanta e anda

O processo de reerguida da minha vida estava começando. Em Agosto de 2019 eu estava buscando a recuperação da depressão, tomando medicamentos para dar suporte a essa situação, fazendo terapia buscando um autoconhecimento e reconhecimento dos traumas que carreguei até ali.

Em novembro de 2019 eu finalizei o meu relacionamento com a pessoa que me inspirou, que cuidou de mim em muitos momentos, que é minha amiga e eu sou seu fã, mas não dava mais certo e estava nos fazendo mal. Ainda em novembro, eu me assumi bissexual publicamente, nas minhas redes sociais e para amigos do trabalho. Conversei com minha mãe sobre minha sexualidade, sobre o fato de eu estar solteiro e que eu poderia aparecer com um rapaz. Em novembro de 2019 eu sai daquele emprego que estava me fazendo tão mal.

Em novembro de 2019 eu decidi recomeçar do zero.

Continua

No próximo texto, vou comentar sobre 2020. O ano em que eu mudei minha vida 100%, comecei um novo relacionamento, tive reviravoltas na vida e no emprego e me levantei de vez para chegar até aqui.

Se quiser acompanhar minha história ou conhecer mais sobre o Malabarizando, siga o projeto nas redes sociais:

Até mais.

2 comentários em “2019

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