Reflexões sobre pensamentos suicidas

Alerta: este texto pode conter gatilhos sobre pensamento suicida

Este conteúdo é um relato pessoal sobre a convivência com os pensamentos suicidas e as palavras podem ser fortes demais para pessoas sensíveis. Não leia até o final se você começar a se você já passou por esse tipo de experiência.

Todos os dias procuro viver como se fosse o último. Cada momento deve ser experimentado como algo especial. Seja cuidar da minha casa, limpando cada cantinho e deixando tudo cheiroso, ou brincando com meus gatos e observando o comportamento de cada um, como um é tão diferente do outro chega a ser muito engraçado e anima o nosso dia.

Você pode nunca ter parado para reparar, mas é muito gostoso acordar, respirar profundamente um pouco antes de levantar e ouvir o mundo lá fora começando a acontecer. A depressão me tirou isso através do processo de despersonalização, onde a apatia fazia parte dos meus dias não somente de alguns momentos tristes, o que seria comuns a todas as pessoas. As vezes você está mal, mas passa.

Só voltei a sentir a felicidade de viver e estar vivo hoje em dia, mas algo me tira a paz quase o tempo todo: os pensamentos suicidas (ou ideação suicida).

Eu acreditava que, com o passar do tempo e os tratamentos que fiz e faço, isso iria sumir, mas descobri que é algo que não vai embora assim. Quase todos os dias me vem o sentimento de que eu estou cansado de tudo e que eu não quero mais passar por esses problemas. Seria bom se eu não tivesse mais que pensar em nada, nunca mais.

Para muitos pode parecer besteira, mas querer dar um fim na própria vida é como buscar uma solução rápida para todos os problemas que nós temos e não aguentamos mais viver com. Nós sabemos que isso não vai ajudar, sabemos que findar a própria vida vai trazer sofrimento aos nossos familiares, amigos e amigas, e/ou namorados(as). O pensamento suicida é como aquele vídeo de coach de finanças que fala para você fazer day trade que você vai enriquecer de um dia para o outro, você sabe que nada vem ou se resolve tão fácil, mas você está em uma situação de vulnerabilidade tão grande, que acaba caindo no desejo e pode até mesmo realizar isso.

Este artigo é um alerta.

Photo by Josh Nuttall on Unsplash

A linha do tempo de do pensamento suicida na minha vida

Tudo começou com os problemas de relacionamento, mas o namoro não era o que me causava tristeza ou frustrações. Não saber me expressar, não me imaginar suficiente para alguém ou simplesmente o fato de não conseguir melhorar o dia da pessoa que eu amava me trouxeram uma tristeza terrível.

Os desafios de lutar contra os seus traumas e reaprender a viver depois de adulto, afinal de contas ninguém nos ensina a cuidar da saúde mental antes de chegar ao pico dos problemas psicológicos, é algo bem complexo e doloroso. Eu queria ser uma pessoa melhor, mas nada que eu fazia me tornava alguém bom.

Minha comunicação sempre foi agressiva. Foi como eu aprendi a me expressar na rua. Quem fala baixinho vira capacho de quem fala mais alto. E você nem precisa ser uma pessoa forte ou algo do tipo, realmente basta aprender a fazer pressão no ponto certo que o domínio das discussões vira algo comum. Na periferia a gente aprende a falar assim pra que ninguém nos ignore ou “monte em cima da gente”.

A empatia é algo que nos é tirado com a socialização, com isso eu não conseguia entender o desconforto ou as insatisfações da minha companheira. Quando criança, a empatia está ali, mas quando adulto parece que isso some da nossa vida.

Não demoraria muito para que essas frustrações e esses traumas virassem uma depressão e com ela viria o descrédito em tudo o que existe de bom. Nada na minha vida fazia sentido algum. Por que eu queria ser um bom profissional? Pra quê lutar comigo mesmo para ser uma pessoa mais agradável? Por qual motivo eu lutaria por um mundo melhor? A resposta para tudo era: não existe razão para nada disso, desista.

Então, eu desisti. Em 2018 comecei meu plano para resolver todos os meus problemas de uma só vez:

  • primeiro eu iria comprar diversos medicamentos aleatórios
  • cada mês eu comprava um pouco
  • em Julho de 2019 eu tomaria tudo de uma só vez e pronto, resolvido

Para que ninguém desconfiasse, todos os meses eu ia em uma farmácia diferente. Umas perto da minha casa, outras do trabalho, outras longe de tudo. Nunca dizia para ninguém o que eu realmente estava comprando, sempre dizia que precisava comprar algo para o estômago, pois a ansiedade me trouxe a gastrite, ou para dor de cabeça, mais uma vez a ansiedade me causa enxaqueca.

Foi muita sorte que, em 2019, eu conheceria alguém que me ajudaria a buscar uma psiquiatra e isso me ajudaria a continuar vivendo. Mas, mesmo depois da terapia, mesmo depois dos medicamentos, o pensamento suicida continua sendo frequente na minha vida.

Tem dias em que eu acordo e tá tudo bem. Tem dias em que eu quero resolver tudo de uma vez e esses dias são os mais desafiadores. É aí que a terapia se faz tão importante na minha vida. São os conselhos, rotinas e práticas que a psicóloga me passa que me ajudam a encontrar motivos para continuar.

Procure ajuda

Se você sente algo parecido com o que comentei até aqui, procure ajuda profissional. Seja indo atrás de um médico clínico geral ou diretamente em um médico psiquiatra. Não tenha vergonha do que você sente, você não é mais fraca ou mais fraco que ninguém por ter esses pensamentos e não é necessário que você enfrente isso sem apoio.

O maior desafio da minha vida foi falar sobre suicídio pela primeira vez. Eu queria tratar a minha depressão, mas a psiquiatra puxou tão profundo que conseguiu chegar a ideação suicida e fez o seu trabalho de uma forma excepcional. Não fiquei assustado, apesar de nunca ter falado sobre isso anteriormente, ela coletou dados de contato emergenciais e, caso eu precise, basta enviar uma mensagem de alerta para ela e eu tenho apoio com urgência.

Livros que me ajudaram

Li muitos livros que poderiam me mostrar como a vida pode ser algo mais legal, como o Ichigo-ichie de Francesc Miralles e Héctor García, indicação de uma amiga que me trouxe uma visão muito legal de como viver bem cada momento da vida.

Livro Ichigo-Ichie

As coisas que você só vê quando desacelera é um livro que me ajudou a refletir sobre autocompaixão e a observar as coisas ao redor.

Livro As coisas que você só vê quando desacelera

Espero que estes dois recursos te ajudem, mas nada vai superar o apoio profissional. Os livros são somente complementos para o nosso tratamento, assim como medicamentos psiquiátricos.

3 comentários em “Reflexões sobre pensamentos suicidas

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