Estigma e Saúde Mental

Antes da reforma psiquiátrica, a visão sobre a saúde mental estava vinculada ao isolamento e controle dos corpos daqueles que não estavam de acordo com a dita “normalidade”. A reforma psiquiátrica (anos 70) modificou essa visão e ampliou o cuidado à saúde mental vinculado ao território e à comunidade, na perspectiva de inclusão e sociabilidade. No episódio Entendendo o CAPS e o SUS, com Larissa Ferreira, tais informações são aprofundadas e contextualizadas.

Nessas cinco décadas, muitos avanços com destaque Política Nacional sobre Drogas no Brasil, que luta pela desmistificação e tratamento no uso e abuso de drogas, em contraponto retrocessos como rever o financiamento dos Centros de Atenção Psicossocial – CAPS aconteceram. Apesar de ocupar lugar de destaque na mídia ultimamente, a política de saúde mental sofre cada vez mais ataques do governo, sendo um dos maiores das últimas décadas em pleno 2020 em total contramão a todos os avanços construídos ao longo desse tempo, através de revogações, a exemplo de portarias que orientam programas estratégicos como Consultório na Rua, baseadas em pouca ou nenhuma cientificidade. Ainda assim, profissionais, organizações diversas e os próprios usuários continuam lutando para que os avanços alcançados antes continuem (saiba mais).

Essa involução das políticas públicas corroboram com muitos mitos e estigmas em torno da temática, o que afeta diretamente as pessoas com algum tipo de transtorno e pode interferir em suas dinâmicas sociais de maneira a propagar sofrimento e afastamento do cuidado.

Mas afinal o que é estigma? Segundo Goffman, é um sinal depreciativo com o objetivo de exclusão e discriminação daqueles que possuem alguma característica que se diferenciam da norma dominante. O estigma internalizado pode causar dificuldades na adesão aos tratamentos e a participação social do estigmatizado.

Como já dito aqui no Malabarizando em outros textos, 86% das pessoas brasileiras possuem algum transtorno mental, ou seja, grande parte da população está em estado de vulnerabilidade em relação à saúde mental. Contudo, quantas dessas pessoas estão em processo de tratamento e/ou acompanhamento ou têm acesso aos meios para que o tratamento aconteça?

Antes de falar sobre acesso, temos que entender a carga do estigma no entendimento e aceitação da pessoa com o próprio transtorno. Não é fácil priorizar a saúde mental no país em que a taxa de desemprego é de 14,3% (14,1 milhões de pessoas), como se sustenta o cuidado à saúde mental sem as necessidades básicas de existência serem garantidas?

As duas instâncias deveriam e devem ser direitos básicos de existência. Por isso, é importante o acesso a informações e a não propagação errônea de estigmas. Palavras como “frescura”, “falta do que fazer”, “doido” e toda gama de discriminação que persiste desde o brasil colonial só reforçam e afastam a procura por tratamento.

Entender a urgência do direito ao acesso à saúde mental (sucateada nos últimos anos, vide o governo atual que não se preocupa com nenhuma camada da saúde de sua população que acessa serviços públicos) é entender que devemos lutar. E de luta a periferia entende e sobrevive. Assim, fica ainda mais latente a importância de fortalecer e cuidar da saúde mental começando por: você não está sozinho.

#defendaosus

Em direção a desmistificação desses estigmas e a luta contra o preconceito, confira os episódios:

Sobre o uso de medicamentos

Sobre a ansiedade

Sobre depressão ser doença de rico

Para mais informações acesse: 

Referências:

NASCIMENTO, Larissa Alves do; LEÃO, Adriana. Estigma social e estigma internalizado: a voz das pessoas com transtorno mental e os enfrentamentos necessários. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v.26, n.1, jan.-mar. 2019, p.103-121.

GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: LTC. 1988.

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