Depressão é doença de gente rica?

Talvez a doença mental mais subestimada na periferia seja a depressão. Desde que ela se tornou um surto social aumentando 18% entre 2005 e 2015, aparecendo na televisão e nos jornais algo que sempre ouvimos de nossos familiares ou das pessoas mais velhas da vizinhança é: depressão é falta de ter uma louça pra lavar.

Isso é problemático de diversas formas, uma vez que o nosso país é um dos que tem a população mais ansiosa e depressiva do mundo, como você pode conferir nos dados que eu sempre repito no podcast:

  • 86% das pessoas brasileiras possui algum transtorno mental;
  • 59% das pessoas brasileiras estão em estado severo de depressão;
  • 63% das pessoas brasileiras estão em estado severo de ansiedade.

Muita gente deixa de cuidar da saúde mental devido a esse tipo de preconceito que vem sendo passado de geração para geração e o principal é dizer que depressão é coisa de gente rica. Acreditei nisso até minha mãe, minha companheira e logo depois eu mesmo passarmos pelos quadros depressivos. Eu, inclusive, chegando ao pico do problema sendo levado aos pensamentos suicidas além dos vários problemas que enfrento no meu corpo graças a ansiedade.

Três pessoas periféricas, de gerações diferentes, afetadas em momentos diferentes pela mesma doença.

Acho que nem preciso te dizer que métodos preventivos de cuidado da saúde mental teriam nos livrado desse tipo de experiência traumatizante. Assim como nos levado a busca por ajuda mais cedo, evitando muita coisa ruim que nos aconteceu.

Para reforçar o que eu quero deixar muito claro com o Malabarizando de que depressão não é doença de gente rica, assim como outros distúrbios mentais que vamos falar mais em outros artigos e episódios do podcast, conversei com três pessoas com experiências diferentes com a depressão, ansiedade, o uso de medicamentos no auxílio do tratamento dessas doenças, assim como o papo com uma especialista no assunto para desmistificar o tema.

Confira abaixo!

Espero que estes episódios te ajudem a mudar a visão sobre a depressão, assim como reforçar a necessidade do autocuidado e te levem a buscar ajuda, caso esteja precisando.

Não tenha vergonha do que a depressão faz com a gente. Você não está sozinha(o) nisso. Conte com o Malabarizando!

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✅ Entenda a depressão

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Fontes:

O que a ansiedade já fez com o meu corpo

No começo era só o coração acelerado e a respiração ofegante. Com o tempo, vieram as náuseas, insônia e tontura. Quando pensamos em ansiedade, dificilmente relacionamos os problemas da mente com algo no corpo, mas não é bem assim.

A ansiedade já fez com o meu corpo, mais do que qualquer droga teria feito em tão pouco tempo.

Existe um processo que acontece no nosso corpo quando temos algumas condições psiquiátricas, como a ansiedade, chamado somatização. De uma maneira simples de dizer, são os sintomas físicos do problema em nossa mente.

A ansiedade causou no meu corpo, através da somatização, um estrago terrível que eu vou precisar conviver por muito tempo e tratar junto ao controle do meu psicológico.

Quando moleque eu tinha uma enxaqueca que nunca passava. Quando adulto isso permaneceu e veio junto a gastrite. Enquanto eu começava meu tratamento para a ansiedade e várias questões vinham a tona, minhas unhas enfraqueceram, minha pele ressecava, apareceram bolinhas pelo meu corpo que, muitas vezes, precisam ser removidas através de pequenas cirurgias.

Em momentos de crise chego a perder o equilíbrio mesmo sentado. Toda vez que eu ia subir em um palco para palestrar, antes eu vomitava. Sempre que eu recebia um feedback negativo, eu não dormia até traçar um plano para resolver aquilo.

Hoje eu continuo com os sinais da gastrite, que todo ano volta. Agora ainda tenho o intestino irritado (já que eu não me irrito mais graças a terapia, o corpo se irrita sozinho).

A última vez que fiz uma cirurgia para remover aquelas bolinhas do meu corpo foi no dia 15 de janeiro de 2021. A próxima vez que vou fazer uma endoscopia para verificar como está o meu estômago é amanhã, dia 02 de fevereiro, visto que eu estou escrevendo na noite anterior ao evento.

Isso acontecendo mesmo em um momento em que eu não me sinto ansioso. Não estou com o coração acelerado, não estou com a respiração ofegante, nada está tirando minha paz em níveis extremos (problemas existem e sempre vão existir), estou finalizando meu tratamento para a depressão, consegui voltar a escrever e gravar o podcast. Inclusive, as caixinhas abaixo são as últimas que vou tomar.

Percebe como algo que achamos tão simples pode trazer diversas consequências para a nossa vida?

Não espere que o seu problema atual se torne algo para o resto da sua vida. Procure ajuda psiquiátrica se você sente algo diferente do normal.

A experiência periférica com a depressão, com Ana Cruz

Depressão, uma doença silenciosa, que chega de mansinho, nos pega de surpresa e quando a gente se dá conta, já estamos no chão. Talvez seja a doença mais subestimada pelo povo periférico, uma vez que nós crescemos achando que a pessoa ter uma tristeza que não passa é frescura e, se a pessoa não consegue levantar da cama para cumprir suas obrigações por conta dessa tristeza, é frescura ou vagabundagem.

Talvez se a informação tivesse chegado até nós um pouco antes, não seria necessário sofrermos o que sofremos e precisar conviver para o resto das nossas vidas com uma doença séria, que impacta milhares de pessoas por ano, já atinge 59% da população brasileira e, na pior das hipóteses, pode levar ao suicídio, que inclusive leva 800 mil vidas por ano segundo a OMS.

Fonte: https://www.paho.org/pt/topicos/depressao 

Neste episódio do Malabarizando, conversei com a Ana Cruz sobre seu caso com a depressão. Confira abaixo!

Os links citados no episódio estão logo depois do cast.

A coragem de ser imperfeito

Atenção Plena: Mindfulness

Reflexões sobre pensamentos suicidas

Alerta: este texto pode conter gatilhos sobre pensamento suicida

Este conteúdo é um relato pessoal sobre a convivência com os pensamentos suicidas e as palavras podem ser fortes demais para pessoas sensíveis. Não leia até o final se você começar a se você já passou por esse tipo de experiência.

Todos os dias procuro viver como se fosse o último. Cada momento deve ser experimentado como algo especial. Seja cuidar da minha casa, limpando cada cantinho e deixando tudo cheiroso, ou brincando com meus gatos e observando o comportamento de cada um, como um é tão diferente do outro chega a ser muito engraçado e anima o nosso dia.

Você pode nunca ter parado para reparar, mas é muito gostoso acordar, respirar profundamente um pouco antes de levantar e ouvir o mundo lá fora começando a acontecer. A depressão me tirou isso através do processo de despersonalização, onde a apatia fazia parte dos meus dias não somente de alguns momentos tristes, o que seria comuns a todas as pessoas. As vezes você está mal, mas passa.

Só voltei a sentir a felicidade de viver e estar vivo hoje em dia, mas algo me tira a paz quase o tempo todo: os pensamentos suicidas (ou ideação suicida).

Eu acreditava que, com o passar do tempo e os tratamentos que fiz e faço, isso iria sumir, mas descobri que é algo que não vai embora assim. Quase todos os dias me vem o sentimento de que eu estou cansado de tudo e que eu não quero mais passar por esses problemas. Seria bom se eu não tivesse mais que pensar em nada, nunca mais.

Para muitos pode parecer besteira, mas querer dar um fim na própria vida é como buscar uma solução rápida para todos os problemas que nós temos e não aguentamos mais viver com. Nós sabemos que isso não vai ajudar, sabemos que findar a própria vida vai trazer sofrimento aos nossos familiares, amigos e amigas, e/ou namorados(as). O pensamento suicida é como aquele vídeo de coach de finanças que fala para você fazer day trade que você vai enriquecer de um dia para o outro, você sabe que nada vem ou se resolve tão fácil, mas você está em uma situação de vulnerabilidade tão grande, que acaba caindo no desejo e pode até mesmo realizar isso.

Este artigo é um alerta.

Photo by Josh Nuttall on Unsplash

A linha do tempo de do pensamento suicida na minha vida

Tudo começou com os problemas de relacionamento, mas o namoro não era o que me causava tristeza ou frustrações. Não saber me expressar, não me imaginar suficiente para alguém ou simplesmente o fato de não conseguir melhorar o dia da pessoa que eu amava me trouxeram uma tristeza terrível.

Os desafios de lutar contra os seus traumas e reaprender a viver depois de adulto, afinal de contas ninguém nos ensina a cuidar da saúde mental antes de chegar ao pico dos problemas psicológicos, é algo bem complexo e doloroso. Eu queria ser uma pessoa melhor, mas nada que eu fazia me tornava alguém bom.

Minha comunicação sempre foi agressiva. Foi como eu aprendi a me expressar na rua. Quem fala baixinho vira capacho de quem fala mais alto. E você nem precisa ser uma pessoa forte ou algo do tipo, realmente basta aprender a fazer pressão no ponto certo que o domínio das discussões vira algo comum. Na periferia a gente aprende a falar assim pra que ninguém nos ignore ou “monte em cima da gente”.

A empatia é algo que nos é tirado com a socialização, com isso eu não conseguia entender o desconforto ou as insatisfações da minha companheira. Quando criança, a empatia está ali, mas quando adulto parece que isso some da nossa vida.

Não demoraria muito para que essas frustrações e esses traumas virassem uma depressão e com ela viria o descrédito em tudo o que existe de bom. Nada na minha vida fazia sentido algum. Por que eu queria ser um bom profissional? Pra quê lutar comigo mesmo para ser uma pessoa mais agradável? Por qual motivo eu lutaria por um mundo melhor? A resposta para tudo era: não existe razão para nada disso, desista.

Então, eu desisti. Em 2018 comecei meu plano para resolver todos os meus problemas de uma só vez:

  • primeiro eu iria comprar diversos medicamentos aleatórios
  • cada mês eu comprava um pouco
  • em Julho de 2019 eu tomaria tudo de uma só vez e pronto, resolvido

Para que ninguém desconfiasse, todos os meses eu ia em uma farmácia diferente. Umas perto da minha casa, outras do trabalho, outras longe de tudo. Nunca dizia para ninguém o que eu realmente estava comprando, sempre dizia que precisava comprar algo para o estômago, pois a ansiedade me trouxe a gastrite, ou para dor de cabeça, mais uma vez a ansiedade me causa enxaqueca.

Foi muita sorte que, em 2019, eu conheceria alguém que me ajudaria a buscar uma psiquiatra e isso me ajudaria a continuar vivendo. Mas, mesmo depois da terapia, mesmo depois dos medicamentos, o pensamento suicida continua sendo frequente na minha vida.

Tem dias em que eu acordo e tá tudo bem. Tem dias em que eu quero resolver tudo de uma vez e esses dias são os mais desafiadores. É aí que a terapia se faz tão importante na minha vida. São os conselhos, rotinas e práticas que a psicóloga me passa que me ajudam a encontrar motivos para continuar.

Procure ajuda

Se você sente algo parecido com o que comentei até aqui, procure ajuda profissional. Seja indo atrás de um médico clínico geral ou diretamente em um médico psiquiatra. Não tenha vergonha do que você sente, você não é mais fraca ou mais fraco que ninguém por ter esses pensamentos e não é necessário que você enfrente isso sem apoio.

O maior desafio da minha vida foi falar sobre suicídio pela primeira vez. Eu queria tratar a minha depressão, mas a psiquiatra puxou tão profundo que conseguiu chegar a ideação suicida e fez o seu trabalho de uma forma excepcional. Não fiquei assustado, apesar de nunca ter falado sobre isso anteriormente, ela coletou dados de contato emergenciais e, caso eu precise, basta enviar uma mensagem de alerta para ela e eu tenho apoio com urgência.

Livros que me ajudaram

Li muitos livros que poderiam me mostrar como a vida pode ser algo mais legal, como o Ichigo-ichie de Francesc Miralles e Héctor García, indicação de uma amiga que me trouxe uma visão muito legal de como viver bem cada momento da vida.

Livro Ichigo-Ichie

As coisas que você só vê quando desacelera é um livro que me ajudou a refletir sobre autocompaixão e a observar as coisas ao redor.

Livro As coisas que você só vê quando desacelera

Espero que estes dois recursos te ajudem, mas nada vai superar o apoio profissional. Os livros são somente complementos para o nosso tratamento, assim como medicamentos psiquiátricos.

2020

2020 foi um ano diferente do que eu imaginei que seria. Se no final de 2019 eu pensava que recomeçar muita coisa do zero seria algo pesado e muito trabalhoso, em 2020 senti que foi a melhor decisão que tomei e a mudança foi muito mais favorável e fortalecedora do que eu poderia imaginar.

Photo by Aniket Bhattacharya on Unsplash

Nem tudo que termina bem, começa bem

Apesar de eu te dizer na introdução que 2020 foi um ano legal, não começou nada bem. Começou com uma crise de ansiedade na casa do meu irmão e dia primeiro eu fui embora ainda na madrugada, logo depois dos fogos, deixando todo mundo sem entender o que estava acontecendo e todo mundo chateado comigo.

Não tem como controlar quando virá uma crise, mas tem como controlar o que vai acontecer na crise (depois de tanto tempo se tratando a gente aprende). Eu percebi que precisava sair dali para não acontecer nada de ruim.

Apesar disso, depois eu conversei com eles e tudo ficou bem.

Novas experiências

Esse ano eu fiz rafting pela primeira vez. Foi algo muito louco! Me senti igual os boy que postam fotos de viagens e acampamentos no Instagram, mas foi uma experiência única e transformadora na minha visão de como eu estava aproveitando a minha vida até ali.

Percebi que meu foco sempre foi trabalho. Nunca comemorei meu aniversário, mas neste ano eu estava viajando e me divertindo.

Eu tive apoio nessa mudança, eu comecei um novo relacionamento (foi tudo muito rápido) e ela me apoiou muito para começar a explorar mais a vida e parar de viver pelo trabalho.

Comecei em um novo emprego, adotei 2 gatinhos, Kléber Maurício e Amélia Lúcia. Eu realmente me entreguei para viver algo novo. Fomos para a praia, levamos Amélia para a minha mãe conhecer. Amélia estava doente quando chegou e estávamos cuidando dela com muito carinho, minha mãe precisava conhecer e ajudar a cuidar dessa lindeza.

Comecei a participar de outra coisa que transformaria a minha visão de mundo: os encontros do MEMOH, uma iniciativa que busca a equidade de gênero através da reflexão entre homens sobre vários temas extremamente fortes.

Foi nesse ano que comecei minha terapia com a Gabrielle Zaniolo, que me ajuda muito em meu tratamento para a ansiedade e depressão através do Zenklub.

Momentos de turbulência

A vida é feita de momentos calmos e momentos difíceis e precisamos aprender a lidar com isso.

Amélia não aguentou e nos deixou e, DE REPENTE, estávamos no meio de uma pandemia com a pior liderança de um país entre os piores de 2020. Isso me colocou em um grande desespero, mas precisei controlar e lidar com isso. A terapia nos ajuda demais nestes momentos complicados.

Cometi vários erros que me levaram a rotina ruim de não me cuidar, como parar de praticar exercícios, me alimentar mal e até deixar de cuidar da casa, mas acredito que a maioria das pessoas que estavam cumprindo o isolamento a risca também passaram por isso.

O “legal” é que, nos momentos de turbulência, aprendemos a buscar ajuda e até mesmo paramos de deixar o orgulho nos controlar. Foi um grande exercício pra mim.

Muitas decisões

Dentre várias decisões tomadas em 2020, como não partir para a área de gerência e continuar focando na área técnica (uma longa história), a melhor foi a adoção de Kassandra Helenna e Geremmyas Eduardo.

É isso mesmo! Eu comecei o ano sem nenhum animal dentro de casa, além de mim mesmo, e terminei com 3 meus e um da minha companheira. Você pode ver todas essas crianças no meu Instagram, que está logo abaixo no final do post.

Foi um ano forte, pesado demais e essa pandemia vai trazer ainda muita dor para as pessoas, mas me transformou para algo melhor do que antes.

Hoje eu percebo o meu auto controle, auto conhecimento e felicidade muito maior. Espero não perder isso com o tempo e conseguir compartilhar mais e mais histórias por aqui.

Obrigado por acompanhar o meu 2018, 2019 e 2020.

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Até mais.